Tasselo: Caro amigo Elias, após meditar e analisar a passagem bíblica de Mateus (23, 1-12), a qual apresenta a ação de Jesus diante da aplicação da lei de Moisés, surgiram-me alguns questionamentos, os quais compartilho com você a fim de obter alguns esclarecimentos, considerando seu conhecimento sobre o assunto: Se não existisse a Lei de Moisés que, na época de Jesus tanto oprimia o povo, ainda que considerando a finalidade boa da lei como o amar a Deus com todo o coração e com toda a alma, teríamos mais facilidades para amar a Jesus Cristo ou o judaísmo não teria se estabelecido como religião de Israel? O motivo de Paulo ter muito de Moisés em sua personalidade se dá ao fato dele ter sido fariseu e especialista na lei mosaica, porém pode-se dizer que ele se apaixonou por Jesus a ponto de perceber que a lei havia perdido sentido e por isso a deixou de lado?
Elias: Essas duas perguntas são bastante complexas para serem respondidas superficialmente, mas tentarei de forma sucinta e simples, pois envolvem todo um contexto que perpassa pela formação do povo de Israel desde o período tribal, bem como a formulação sistemática e doutrinal após o exílio babilônico até o tempo de Jesus na qual situamos a leitura em questão para podermos compreendê-las.
Primeiro ponto: quando você diz que a Lei de Moisés oprimia o povo é preciso entender que tal lei não oprimiu como pode transparecer numa leitura rápida do texto bíblico, mas o mau uso e interpretações equivocadas que fizeram dela como no caso dos fariseus e doutores da lei do tempo de Jesus. Eles que a distorceram em benefício próprio colocando fardos pesados sobre o povo. Todas essas leis não foram formuladas por Moisés como a conhecemos quando analisamos o contexto de seu tempo num deserto com poucos recursos para a escrita. Mas grande parte foi formulada enquanto código de leis no período pós-exílio pelos sacerdotes durante o processo de reorganização do povo.
Já existiam alguns escritos da época monárquica que os religiosos do templo de Jerusalém haviam organizados como é o caso do manuscrito encontrado no templo durante o reinado de Josias que promoveu uma reforma religiosa. Mas é preciso voltar um pouco no tempo para compreender a formação do povo de Deus quando os fugitivos do Egito, que passaram pela experiência de fé no deserto, se instalaram na terra de Canaã e o período que se segue chamado de “sistema tribal” que, também, podemos denominar de comunitário onde surgem as primeiras leis para se garantir o projeto de vida e liberdade, o projeto de Javé. Um projeto que tende a garantir a fraternidade para que não haja exploração e ninguém do povo passe por necessidade, onde o pobre, o órfão, a viúva e o estrangeiro fossem amparados e protegidos pela comunidade. Tanto que esse projeto encarnado na vida cotidiana do povo provoca, nas tribos mais simples, uma resistência à monarquia, pois com esse novo sistema há grandes mudanças e isso abala as relações tribais. Samuel faz algumas observações e alerta ao povo quanto às mudanças que isso pode significar dentro do projeto que eles vivem. O modo de vida deles era um projeto, uma prática com base num sonho de uma sociedade onde todos se viam como irmãos. Essa resistência vai ser representada, de modo particular, pelo movimento profético que vai acusar as autoridades políticas e religiosas de abandonar o projeto de Javé e ao mesmo tempo provocar um retorno ao projeto inicial simbolizado na caminhada de Elias até o monte Horeb e o constante convite a conversão. Neste sentido há uma relação entre a compreensão do que é justiça e o projeto de Javé vivenciado dentro do sistema tribal, onde é possível encontrar nas tradições do povo hebreu os ensinamentos de Moisés.
Diante disso, a sistematização do judaísmo, como religião cheia de leis que conhecemos no tempo de Jesus, ocorre principalmente após o retorno do povo de Israel do exílio na Babilônia. Antes disso era o povo de Israel organizado em tribos tanto no período do sistema tribal quanto na monarquia, onde, neste último, os profetas assumem um papel importante na defesa do projeto de Javé e que agora no pós-exílico se reorganizará como povo judeu dando um sentido mais religioso a sua constituição identitária.
Então, os diferentes grupos existentes no tempo de Jesus que eram especialistas na lei como os fariseus, saduceus e doutores da lei, eles estão no contexto religioso do judaísmo sistematizado que se seguiu a esse período de reorganização e constituição identitária enquanto povo judeu. Por isso vai ser muito importante essa ideia de povo santo escolhido por Deus, de um povo puro sem qualquer mistura consanguínea e isso se reflete no culto. Não quer dizer que esse pensamento não existia antes, a diferença é que vai ser retomado com maior acentuação e levado ao pé da letra. É nessa época que surge muito forte esse pensamento do puro e do impuro para se diferenciar dos outros povos que vai ser escrito grande parte das leis de Moisés sob a liderança do sacerdote Esdras. Este sacerdote vai ter um papel importantíssimo na organização do culto, das leis e na valorização das tradições religiosas. São os grupos que surgem nesse intervalo de tempo (século IV-I a.c.) que vão distorcer a lei de Moisés a partir de suas interpretações e interesses. São esses grupos que Jesus vai confrontar como vemos não só no capítulo 23 de Mateus, mas no capítulo 15, também, e em outras partes desse Evangelho. Jesus vai dizer que eles mudaram a lei de Moisés, que essa lei não é aquilo na qual foi transformada por eles.
Diante disso, quando se fala em lei de Moisés está se falando de uma lei construída num processo histórico que têm várias fases na sua formulação e que tem como referência principal o projeto de Javé para o povo de Israel. Moisés não deixou algo pronto e acabado, mas um projeto em construção. Projeto este que foi sonhado pelos hebreus no deserto liderado por Moisés, vivenciado pelas tribos na terra de Canaã, defendido pelos profetas durante a monarquia e sistematizado pelos sacerdotes após o exílio. Por isso que Jesus vai questionar os legalistas de seu tempo que transformaram um projeto de vida (lei de Moisés) num sistema de exclusão, opressão e morte. Então Jesus quer mostrar para os fariseus que a lei tem um fim bom quando ele diz para o povo: fazei e observai tudo o que eles dizem..., mas que eles abusam dessa lei desvirtuando seu sentido e hipocritamente não a praticam: mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam. Eles mesmos desobedecem a lei que ensinam.
O que se percebe com essa realidade, que o não reconhecimento da pessoa de Jesus (Messias) por parte dos especialistas na lei de Moisés acontece por causa dessa distorção da lei (e não compreensão da mensagem dos profetas). Desse modo eles impedem que o povo também reconheça o Messias. Eles estão preocupados em manter seus privilégios e por isso querem um messias-rei poderoso que restaure o reino de Israel da época de Davi e Salomão, mas esquecem dos profetas especialmente de Isaias que anunciou um messias como servo sofredor.
Apesar dessa distorção, é preciso reconhecer a importância e o significado dessa lei para a reconstrução do povo de Israel, para sua identidade religiosa agora como povo judeu. Eles precisavam se reconstruir e se constituir dentro de uma nova lógica como separados dos demais povos, pois o exílio havia destruído muita coisa. Não sei se eles iriam conseguir se reorganizar do modo como isso aconteceu sem a sistematização dessa lei. Poderiam até conseguir, mas seria muito mais difícil, pois a lei ajudou a forjar sua identidade. Por isso que é preciso compreender tudo isso para se entender as críticas de Jesus. Vale observar que Jesus não critica a lei, mas os fariseus, os doutores da lei, os saduceus e os herodianos. O povo já era dominado pelo império Romano e não precisava de mais um fardo.
Quanto à questão se teríamos mais facilidade para amar a Jesus ou se o judaísmo não teria se estabelecido, acredito que depende muito do conhecimento que podemos ter quanto ao projeto de Javé, o projeto de libertação e aquilo que o próprio Jesus veio resgatar para reinaugurar. Acredito que a partir dessa consciência é possível amar a pessoa de Jesus independentemente do judaísmo. O que Jesus vem resgatar e ao mesmo tempo reinaugurar? O projeto de Javé que agora significa um novo tempo, o restabelecimento de tudo aquilo que se sonhou, que se planejou para o povo de Deus e que está no cerne de toda a mensagem do Evangelho.
Quanto a Paulo, ele é fariseu e por isso está nesse mesmo contexto do seu grupo religioso, legalista e distorcido do objetivo da lei. Por isso que depois de liberto da lei, ele vai dizer que ela escraviza. Isso requer que ele passe por toda uma transformação principalmente no que diz respeito ao projeto de Deus para seu povo. Somente depois quando Paulo se der conta do equívoco de sua visão sobre a lei de Moisés que somente a graça de Deus é capaz de libertar e salvar. Aquilo que ele pensava, quando perseguia os cristãos, não era mais o projeto de Deus, havia se distanciado e se tornado em objeto de opressão e morte. Após essa mudança de consciência, Paulo percebe que na mensagem e na pessoa de Jesus há a originalidade do projeto de Javé. Por isso, ele vai ser um apaixonado por Jesus. E todo aquele ímpeto que ele tinha permanece, mas numa nova visão, de uma nova lógica, a lógica da fraternidade, da comunidade (o lugar da partilha), de tal modo que ele vai formando comunidades em vários lugares como um novo jeito de ser povo de Deus e vivência da graça. Isso só foi possível quando Paulo descobriu a originalidade e o verdadeiro sentido do projeto-mensagem de Jesus. Então ele percebe que aquela lei de Moisés sistematizada e tudo o que ele defendia antes não tem mais sentido, se esvaziou diante da nova experiência que ele vive e que as comunidades cristãs, também, vivem a partir da pessoa de Jesus, que as comunidades não estão ligadas a Deus por uma lei, mas pelo vínculo do amor que constrói uma nova sociedade e refaz o povo da aliança, que cria novos vínculos entre os seres humanos.
Elias de Nazaré Moraes (Elias Flexa) é graduado em Filosofia pela faculdade São Luiz (SC), especialista em Filosofia e Teoria do Direito (PUCMinas) e mestrando em Filosofia pela UFPA. Contato: eliasdenazare@hotmail.com
Tasselo Brelaz do Carmo é graduado em Filosofia pela faculdade São Luiz (SC) e especialista em Psicologia Jurídica pela FAMETRO-Manaus.
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